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Deus está nas pequenas coisas...

É oficial, estou aberto a mudanças. Estou disposto a olhar o mundo sob uma nova (velha) ótica, querer ver as ações do Divino influenciando nossas vidas. Sou obrigado, até mesmo, a acreditar na volta de seu filho/deus, que irá nos salvar -- ao penar, novamente por estas terras.

O texto acima reflete muito o momento pelo qual passo, aliás, o desafio que tenho: Compor o personagem Manoel, de Vereda da Salvação. Manoel é homem simples, trabalhador, religioso. Crente, em todos os sentidos. Ele é um daqueles que sente, até apela (por), a presença do divino no seu dia a dia. Deus é a esperança de tempos melhores, quando confrontado com a dureza da vida no campo.

O personagem é assim, eu, o ator-criador, não. Um desafio e tanto, não é?

Apenas lembre-se de que não é só porque você imagina uma coisa que ela não existe ;-) não há relação causal entre as duas coisas
Ricardo Bánffy

Para piorar tenho tido uma sucessão de semanas ruins, muito ruins,  entremeadas por alguns dias estranhos, muito estranhos. Existem momentos sinto que o velho Manoel parece querer impor sua crença sobre a minha, percebo uma leve sugestãopara que eu pare de tentar entender e simplesmente aceite que as coisas são do modo que são apenas por que Deus assim as quer. Concedo a você que seria mais fácil viver assim, mas ainda estou no comando e não me aceitaria desta maneira.

Só para se ter uma idéia, nas últimas duas semanas passei por duas três inundações (não é exagero) no escritório, dois micros queimados, uma tv queimada, um ventilador de teto que ataca pessoas, atrasos de 3h em vôos e problemas de roteamento com o meu fornecedor de conexão. Isto foi apenas uma pequena parcela (ah, estou também procurando um novo apartamento e brigando com a "ouvidoria" do "provedor" Terra)...

"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?"

Assim como a solução de cada problema poderia ser saudada (e quase sempre o é, pelas pessoas a minha volta) com o indefectível "graças a Deus", cada um destes "inconvenientes" poderia receber um "graças a Deus", correto? Afinal, Ele é onipotente, onipresente e depois de umas sessões de terapia deixou de ser punidor e vingativo para se tornar apenas amor e caridade.

Para que se preocupar com as causas dos seus problemas? É mais fácil acreditar em mau olhado, azar, inferno-astral, conjunção de planetas, carma, "encostos" e outras crendices. Depois, é só culpar o destino (ou o Governo, claro) pelos seus percalços e fracassos. Eu deveria, realmente, fazer isto.

O problema é que o Manoel é apenas linhas em uma folha de papel, enquanto eu sou programado para questionar, fuçar, buscar, hackear. Uma incômoda sensação de vazio toma conta quando sou obrigado a abandonar um problema sem uma resposta, e simplesmente acreditar, ou creditar, nas coisas seria apenas o caminho mais rápido para uma frustração futura.

Descobrir que a calha do seu esritório é mal implementada, que a pá do ventilador sofreu torções que comprometeram sua integridade estrutural, que tomadas explicitamente marcadas como 220v fritam aparelhos em 110v e que a sua velha televisão implora por uma aposentadoria (após 3 Copas do Mundo, 2 mudanças e 8 videogames) me é muito mais reconfortante. É saber que cada uma destas experiências geram Experiência e que elas são decorrentes de minhas ações -- ou de minhas inações, como queiram.

No final das contas, eu não preciso de fadas ou duendes para admirar, me preocupar com, ou mesmo, cuidar do meu jardim Se estiverem lá, sorte deles.

 

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