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Tudo sobre a escolha do padrão de TV Digital

Com a declaração do ministro das comunicações, Miro Teixeira, sobre a possibilidade de termos um padrão brasileiro para TV digital, o país novamente voltou sua atenção para um mercado que movi

Com a declaração do ministro das comunicações, Miro Teixeira, sobre a possibilidade de termos um padrão brasileiro para TV digital, o país novamente voltou sua atenção para um mercado que movimentará cerca de US$ 100 bilhões nos próximos 15 anos. Diversos veículos estão enfatizando o assunto, mas quase sempre passam a falsa impressão de que TV digital nada mais é do que uma TV de alta definição (HDTV), melhoria técnica que possibilita melhor qualidade de som e imagem.

Para muitos, os dois termos são quase sinônimos, sendo que na verdade a melhor qualidade de vídeo e áudio é apenas uma das possibilidades abertas pela digitalização das transmissões de TV. Com ela torna-se possível o envio de um volume maior de informações na mesma banda (6Mhz) utilizada atualmente pelas emissoras de TV com transmissão analógica. Onde hoje trafegam 4Mbps de informação, teremos até 19Mbps, ganhos com a melhor utilização do sinal e com tecnologias de compressão utilizadas.

Este maior volume de informações trafegadas possibilita aplicações como o datacasting, envio unidirecional de dados, a TV interativa e a transmissão simultânea de múltiplos canais de SDTV (TV com definição equivalente as existentes atualmente) por uma mesma emissora.

A escolha de como esta banda será utilizada é uma definição da emissora responsável pela programação. Esta flexibilidade permite a uma mesma emissora utilizar os dois modelos de transmissão conforme a sua necessidade.(Ex: Um jogo de futebol poderia ser transmitido em três canais de SDTV, cada um com uma câmera específica. Enquanto a novela poderia utilizar-se da melhor definição e qualidade da HDTV).
Toda inovação demora a ter seus conceitos consolidados e a adoção desta tecnologia é relativamente recente para transmissões de TV aberta e três padrões competem por este mercado, sendo que um quarto padrão deve ser definido até o final do ano.

Entre eles existem mais similaridades que diferenças, pois todos são baseados em tecnologias amplamente conhecidas. Para a codificação do sinal utiliza-se Reed-Solomon, a compressão e transporte de vídeo são feitos com MPEG-2 e o encoding de áudio costuma ser MPEG-2 ou Dolby AC-3.

A diferenciação entre eles sempre é conseqüência de demandas específicas dos países de origem. Isso pode ser verificado sabendo um pouco mais sobre cada padrão:

  • ATSC (Advanced Television Systems Committee) – Padrão Americano

Foi desenvolvido com o intuito de suportar transmissões de HTDV. Utiliza a modulação 8-VSB, ideal para recepção com antenas externas e em ambientes de pouco ruído impulsivo (Por exemplo, a interferência gerada por um liquidificador).

A demanda por HDTV pela TV Aberta é uma resposta a perda de fatia de mercado para os canais veiculados a cabo. Adotado pelos EUA, Canadá, Coréia do Sul e Taiwan. O ATSC já opera com mais de 500 emissoras e possui cerca de 4% do mercado norte-americano.

  • DVB (Digital Vídeo Broadcasting) – Padrão Europeu

Para o desenvolvimento do padrão europeu foi definido que uma das maiores prioridades seria a recepção do sinal com antenas internas, que no padrão americano é de péssima qualidade. A solução encontrada foi a substituição da modulação 8-VSB pela modulação COFDM, que possuía uma maior robustez.

Na Europa as escolhas feitas privilegiaram a multi-programação, através da transmissão de múltiplos canais SDTV a fim de comportar a demanda reprimida por mais emissoras. Além disto outro fator importante na escolha da multi-programação é a aparente falta de receptividade do mercado europeu aos aparelhos de telas grandes.

Além dos países europeus, este padrão foi adotado pela Austrália e por Singapura.

  • ISDB (Integrated Services Digital Broadcasting) – Padrão Japonês

O Japão, apesar de pesquisar soluções comerciais de HDTV desde a década de 60, teve o seu padrão homologado apenas em 1999. A demanda por recepção móvel foi uma das premissas para a criação de um padrão japonês de transmissão digital.

O ISDB é uma derivação do padrão DVB europeu, utilizando inclusive a mesma modulação. As diferenças com relação ao DVB foram respostas à relativa fragilidade do padrão europeu no quesito recepção móvel.

A previsão para entrada em funcionamento das primeiras emissoras de TV digital no Japão aponta para o primeiro semestre deste ano.

  • Padrão Chinês

O quarto padrão, ainda em estudos, é financiado pelo governo chinês. Atualmente 5 modelos estão em testes, mas a probabilidade é que o sistema a ser adotado seja uma variação do padrão ATSC.

AS OPÇÕES PARA O BRASIL

Os estudos brasileiros sobre a adoção de um padrão digital de transmissão terrestre remontam ao início dos anos 90, mas foi em 1998 que ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações) e SET (Sociedade de Engenharia de Televisão) iniciaram trabalhos conjuntos para a definição de qual, entre os padrões, seria o mais adequado ao mercado brasileiro.

Durante o processo de escolha foi feito estudo minucioso comparando os aspectos técnicos dos três padrões e verificando a sua adequação as necessidades brasileiras. A recomendação técnica foi pela utilização do padrão ISDB-T, referendou o DVB-T e apontou que o padrão ATSC era o menos adequado às condições nacionais. Tal resultado reverteu uma situação que parecia definida, a adoção pela Argentina do padrão ATSC. Neste momento vários países da América Latina esperam a definição brasileira a fim de escolherem seus sistemas de TV de próxima geração.

A definição do padrão escolhido não se resume a uma questão de superioridade técnica. Aspectos econômicos e políticos norteiam a decisão e para o governo brasileiro a negociação de contrapartidas a serem oferecidas pelos consórcios interessados era ponto vital para a decisão final.

Ainda no governo FHC, uma lista de exigências, que vão desde capacitação de técnicos brasileiros até a participação nos organismos responsáveis pela definição das tecnologias adotadas, foi divulgada aos interessados. As negociações, bem como a decisão definitiva, está em processo e deve ser finalizada pelo novo ministro das comunicações Miro Teixeira.

É claro o desejo do governo brasileiro de que a escolha do padrão de TV digital traga como benefícios a implantação no país de uma indústria de semicondutores e a criação de um pólo exportador de tecnologia. Com isto o governo planeja melhorar o resultado da balança comercial brasileira neste segmento, hoje dominado pelas importações. Boa parte dos US$ 100 bilhões que movimentará a implantação da TV digital no Brasil deve retornar aos proprietários das tecnologias utilizadas a título de royalties. Por isto a proposta de desenvolvimento de um padrão nacional visa diminuir este montante enviado ao exterior através da adoção de tecnologias desenvolvidas no país. Como conseqüência deste movimento, o governo espera impulsionar as áreas de pesquisa e desenvolvimento no país.

Os opositores da proposta apontam que a escolha de um padrão brasileiro criaria uma nova reserva de mercado, impossibilitando ganho de escalar e nos levando a uma situação similar a vivida na escolha do PAL-M como sistema de transmissão em cores. A argumentação é de que naquela época, os televisores brasileiros custavam em média 30% mais que os similares comprados em países vizinhos, pelo fato da falta de escala gerada pela escolha tecnológica.

A primeira vista a análise parece ser correta, pois um país de 57 milhões de aparelhos não possuiria a escala necessária para baratear a tecnologia e para exportar em pé de igualdade com a Coréia do Sul (que escolheu o padrão americano), mas a situação merece uma análise mais detalhada, pois:

  • A escolha de um padrão nacional não reduzirá drasticamente os montantes pagos a título de royalties, pois as tecnologias base do modelo de transmissão digital continuarão presentes.
  • A escolha de um padrão brasileiro não fecharia as possibilidades de exportação de tecnologia, deve-se levar em conta que não estamos mais na década de 70, os aparelhos de TV são modularizados e os custos dos receptores não são significativos quando comparados aos outros módulos de um aparelho de TV.
  • Transmissões em HDTV só apresentam sensível diferença de qualidade quando assistidas em aparelhos com mais de 29”, de preferência no formato 16:9 (Aquele mesmo dos cinemas) e que 85% das vendas de aparelhos nos últimos 6 anos se restringe aos televisores entre 14” e 20”.
  • A real razão da não-competitividade do país no quesito exportações refere-se muito mais a questões tributárias que tecnológicas.

As vantagens tecnológicas apresentadas por um ou outro dos padrões podem ser temporárias e estamos escolhendo o sistema de transmissão de TV para os próximos 50 anos, portanto a definição deve ser feita com todo o cuidado, mas sem perder o timing para a mudança.

Apenas o tempo dirá se o estudo de um padrão brasileiro, patrocinado pelo ministro Teixeira, vingará como produto comercial ou se tudo não passa de uma estratégia de adiar a escolha por tempo suficiente para uma análise mais cautelosa da implementação e operação nos outros países.

A tarefa do ministro, em qualquer dos cenários, é também equacionar a questão da tributação que hoje diminui a competitividade dos produtos nacionais no mercado externo, pois não é só a escolha tecnológica que determinará se o país tem ou não condição para exportar TV digital.

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