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Amar Soninha Francine

Com uma realidade que impõe a fé cega ou a crítica burra, é ótimo conseguir encontrar pessoas racionais entre nós, e não apenas postulantes a messias.
Amar Soninha Francine

Soninha Francine e Érico Andrei

Como é dura a vida na terra do simplismo e do dualismo.

Questionar ou opinar resulta em punição com rótulos pejorativos. Elogio ao Lula? Por certo só pode ser Petista! Ponderação sobre os anos FF.HH.? Você é um tucano de alma. Admissão de  que não tem uma opinião formada só pode significar acovardamento.

Nunca aceitamos dúvidas ou questionamentos sinceros. Pessoas públicas devem ser infalíveis e sempre mostrarem certeza dos seus atos e opiniões. Não conseguimos aqueles poucos humanos que se mostram por inteiro. Acertos e erros. Certezas e dúvidas. Pouca ou nenhuma hipocrisia.

Votei em Soninha Francine para prefeita de São Paulo. Foi um voto aliviado, quase de protesto, pois mesmo sabendo que ela era a mais alinhada com o que penso de mundo, tinha certeza de que não ganharia. Não votaria em Kassab e também não mais votaria na Marta. Em ambos os casos consigo citar pontos positivos das administrações, assim como reclamar de maneira assertiva sobre pataquadas, pseudo-escandâlos e mazelas. No final, votar na Soninha foi um alívio. Algo novo no cenário paulistano.

Até que vieram os rumores e ela, de pronto, aceitou uma subprefeitura na segunda gestão Kassab... No primeiro momento fiquei indignado, me sentindo traído até, mas consegui enxergar a coerência do gesto. Vi até mesmo humildade, afinal se ela se achava apta a gerir a cidade como um todo, não poderia fugir do desafio de encabeçar uma parcela da administração.

Fiz minhas apostas -- comigo mesmo -- e as probabilidades eram de que ela não duraria meses na sub-prefeitura da Lapa. Afinal, o que não faltam são novatos com excesso de vontade na administração pública. Novatos que são prontamente desanimados por uma minoria muito vocal que ali está instalada.

Para minha surpresa, 3 dias após sua posse, encontrei a Subprefeita Soninha no Campus Party e, prontamente, me permiti o momento tiéte. Ela estava caminhando sozinha pelo pavilhão, com seu capacete na mão e foi extremamente gentil -- até mesmo ao criticar meu recém-adquirido N96 -- e atenciosa. Pedi uma foto e a foto foi tirada. Ela poderia ter ido embora, sair caminhando, mas ela me deu a oportunidade de, durante 1o ou 15 minutos poder conversar e perceber que a candidata -- e então "autoridade" -- não diferia do ser humano que eu imaginava que fosse.

Eram três dias como sub-prefeita e ela já acumulava dúvidas, mágoas e aquela sensação de impotência ante à máquina e suas engrenagens devidamente "engraxadas". Dei minha opinião -- de que ela não duraria muito ali, não teria estômago -- e pedi encarecidamente que ela continuasse a blogar e twittar. Que compartilhasse as dúvidas e dramas da vida pública.

Nos últimos meses ela tem sido minha leitura obrigatória. Enfrentando situações como a da festa de aniversário e críticas pela sua postura agressiva na defesa do uso da bicicleta como meio de transporte, ela tem dado a cara para bater tanto no seu perfil do Twitter como no seu blog. Ela se permite mostrar dúvidas, de questionar proposições populistas e, mesmo, de relativizar problemas como o do transporte público em São Paulo, que sempre foi e, provalvemente, será alvo de críticas.

Soninha tem dúvidas, questiona, se expõe e defende posições que, certamente, não conquistarão ondas de votos -- defender o Brasil para Todos, o movimento dos ciclistas e a transparência com relação as reais capacidades do governo -- mas que me mostram que existe algo além de promessas e imagens feitas. Existem seres humanos realmente interessados em dar a cara para bater, em fazer a diferença.

Obrigado Soninha, você me lembra que fugir do dualismo é possível. Que deixar a "crítica pela crítica" de lado e arregaças as mangas é possível. Quantas pessoas públicas seguirão seus passos?

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