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O mundo com apenas cinco computadores

Gigantes lutam pela sua audiência e para tomar conta de seus dados e de sua empresa mediante módico aluguel. Microsoft, Google, Amazon, Ebay, Yahoo, Apple, IBM, Oracle, Newscorp e Sony entre eles.

Vicente Matheus foi um dos dirigentes de clube de futebol mais folclóricos que se tem notícia. Imigrante espanhol e com pouca educação formal, costumeiramente era “traído” por frases captadas pelos microfones das rádios. Muitas delas se tornaram célebres e até hoje são motivos de piada.

Menos uma: “- Liga na Antarctica e manda eles trazer umas caxa de Brahma pra nóis” (ou alguma variação). Depois de anos, o engano virou profecia…

O mesmo pode ocorrer com Thomas J. Watson, ex-presidente da IBM que nos anos 40 opinou que não haveria espaço para mais do que cinco computadores no mundo (ok, ele pode não ter dito isto, mas a história conta assim). Desde os anos 80 esta tem sido uma das piadas favoritas de qualquer profissional de tecnologia - só que, pelo rumo que as coisas estão tomando, Mr. Thomas será elevado à categoria de profeta e visionário.

Profeta redimido?

Há três meses Greg Matter, figura importante da cada vez menos importante Sun (ok, foi só um veneno), afirmou em seu blog que é muito provável que a profecia de mais de meio século sobre os cinco computadores se realize.

Obviamente ele não falava de cinco computadores pessoais, assim como aposto que Thomas Watson não imaginava a diversidade de artigos que podem ser chamados computadores em nossos lares hoje, mas sim de cinco tera-computadores (ou grids, ou seja lá o formato que isto tome no futuro) que serão os responsáveis por boa parte de nossa vida diária.

A Sun, há uma década, tinha o discurso de que a rede era o computador. Naqueles tempos houve uma pequena marola feita pelos thin-clients, mas ela estava inovando, mostrando o caminho e os obstáculos impediam uma implantação mais realista do conceito.

Hoje o conceito é realidade indiscutível e a Sun é mera coadjuvante. Microsoft, Google, Amazon, Ebay, Yahoo, Apple, IBM, Oracle, Newscorp e Sony parecem ser os principais nomes deste jogo.

Pequeno aviso

O mais observador dirá que citei duas vezes mais nomes do que o prometido no título do artigo, mas quero deixar claro que Deus, sim, joga dados, e que as previsões são apenas previsões e as análises são apenas análises, e que por isto me dou o direito de apostar em alguns nomes.

Google aumenta a aposta

A notícia de tecnologia da semana passada foi a oferta oficial do Google de um pacote premium — leia-se pago — para empresas que desejem maior capacidade e confiabilidade de seu serviço Google Hosted Services. Para quem nunca viu ou ouviu falar, este é um serviço que o Google oferece, em sua versão básica, gratuitamente para empresas, pessoas físicas, comunidades, instituições de ensino e para a numerosa torcida Juventina, com direito a até 50 contas de e-mail com 2Gb de armazenamento, calendário corporativo, instant messenger, construtor de páginas, painel de controle e mais alguns penduricalhos.

Resumindo: Um serviço que elimina boa parte da “mágica” feita por profissionais de TI e empresas de software para seus clientes.

O pacote básico foi um tiro no Exchange Server, produto da Microsoft que até então reinava absoluto como solução corporativa para comunicação e compartilhamento de agendas. O golpe era esperado pela Microsoft há tempos, tanto que ela possui um serviço semelhante sob a bandeira do Windows Live, mas amigos que trabalham para a gigante de Redmond admitiram que em pequenas e médias empresas a preferência apontou para o Google.

O pacote premium traz também maior confiabilidade, suporte 24×7, mais espaço para armazenamento (10Gb por conta de e-mail) e, a grande novidade, a versão corporativa do Google Docs, inicialmente com os aplicativos de planilha eletrônica e editor de textos. Tudo isto por 50 dólares anuais, por usuário. Parece muito? Faça a conta de quanto é o investimento na compra de licenças de Microsoft Office, Exchange, compra de servidores, manutenção de datacenter, custos com energia elétrica e você verá que este valor é muito atrativo para as pequenas e médias empresas, que não possuem liberdade de negociação ou pacotes corporativos com a Microsoft.

Microsoft preparada para a batalha

Não é necessário dizer que a Microsoft tem seus méritos e que sabia que o modelo de venda de licenças de software tinha seus dias contados. Em 1997 as receitas da Microsoft eram 97% provenientes da venda de software e 3% da venda de serviços. Na mesma época Oracle, Sun e IBM tinham uma divisão próxima a 50/50 entre as duas linhas de receita. Isto era o maior trunfo da Microsoft e sua maior fonte de preocupacão.

Enquanto a Microsoft tinha por hábito fomentar a criação de uma comunidade de parceiros, pequenos e gigantes, ao seu redor para prestar serviços, as outras empresas se davam ao luxo de atender as grandes contas pessoalmente, mantendo uma constante e inabalável fonte de receitas. O modelo da Microsoft a levou à dominância absoluta no mercado de desktops e foi responsável por sua maturidade no mercado corporativo, pois havia enorme oferta de opções de fornecedores de serviços.

Depois da compra do software, as empresas tinham liberdade de escolha de fornecedor, o que acontecia em escala muito menor com as outras empresas.

O problema é que a venda de software era cíclica, dependia de novas versões e não era possível o lançamento de um Office e um Windows por ano. As empresas não comprariam novas versões apenas para ter uma interface mais bonita ou assistentes mais espertos — aliás, depois do Office 97 este cenário ficou ainda mais crítico.

Como a Microsoft não podia atirar em seus próprios parceiros, ela buscou novas formas de receita, que fossem recorrentes, inicialmente com a MSN (nos Estados Unidos os usuários pagam pelo acesso e ganham serviços — leia-se software) e mais recentemente o XBox — não pense no console ou na venda de jogos, pense no XBox Live, que é o diferencial com relação aos serviços que a Sony oferece.

Os próximos passos serão versões online dos produtos que o Google oferecer. Se o Google oferece e-mail e calendário, a Microsoft terá uma versão “alugável” do Exchange. Para competir com planilhas e editores de texto, ela oferecerá todo o Office e por aí vai. Se o Google não tinha a perder investindo neste front, a Microsoft tem seu todo seu “estilo de vida”.

Escolha entre Google ou Microsoft. Seus dados, em alguns anos, provavelmente pertencerão a datacenters deles.

Fotos, vídeos, favoritos e notícias. Que tal uma web 2.0?

A web 2.0 não é uma revolução. Ela não criou conceitos do nada e ela não apareceu por obra e graça de Tim O’Reilly. Ela é uma prova darwinística de que os mais aptos se adeqüam e sobrevivem. Amazon e E-Bay estão aí como provas de que os conceitos estavam sendo aplicados há anos, mas apenas por alguns visionários.

O ponto aqui é que estamos cada vez mais dependentes da web e a web cada vez mais dependente de nós. (Nós aqui aplicado a pessoas físicas, não empresas). Sites como Slashdot, Wikipedia, Digg, Outrolado (ok, propaganda descarada), Flickr, Wikimapia, YouTube, Del.icio.us e o famigerado Orkut são construídos e mantidos pelos usuários e não por equipes editoriais remuneradas. Este fenômeno atraiu a atenção das maiores empresas de internet que saíram às compras a fim de consolidar seu espaço em cada um destes nichos.

Google levou Writelly, YouTube e uma outra dezena de empreendimentos. Yahoo fez o mesmo com o Flickr, Del.icio.us e também com outra leva de sites colaborativos. A Microsoft investe um bom dinheiro na criação de clones de sites como Digg e de serviços oferecidos pelos concorrentes e até a Newscorp, uma empresa de mídia, se movimenta e compra o MySpace.

Os conteúdos que produzimos, as fotos de nossas férias, os vídeos de amigos e até os meus sites favoritos já estão concentrados em poucos players. Serviços online nascem, crescem e são devidamente incorporados por um dos grandes. Será que haverá espaço para a “independência”?

Meus dados confidenciais, sua responsabilidade

Aqui entra a poderosa Oracle. Já é verdade que hoje boa parte da minha vida, e da sua também, passa por bases de dados vendidas pela empresa de Larry Ellison. Isto tende a ficar ainda mais sério já que a Oracle está se posicionando como A empresa de ERP e CRM. Através de fusões e aquisições ela se tornou páreo para a então líder deste mercado, a SAP, e já tem mais momentum que a empresa alemã, que, aposto eu, será engolida pela Microsoft.

Grandes empresas já terceirizam seus datacenters, compra de licenças e manutenção de sistemas de ERP e CRM com prestadoras de serviço como a EDS, Gedas, IBM. Tudo o que impede a Oracle de cortar estes intermediários são investimentos. O dinheiro existe, a vontade também. Ou seja, o ERP da sua empresa, em breve, poderá rodar em um megacomputador, ou em diversos computadores, em algum lugar remoto do planeta, mas com muita conectividade e os devidos contratos de SLA (acordos de nível de serviço).

Mídia, a fronteira final

Aqui é onde a briga promete ser mais feroz. Tão feroz que merece um artigo à parte, o próximo da série, mas quero deixar algumas informações interessantes:

1. Nos anos 80 a Sony, empresa de eletrônicos, comprou empresas de mídia (Columbia Pictures, emissoras de TV) para poder “forçar” seus produtos como padrão de fato da indústria;

2. Desde os anos 90, a Microsoft (que é sócia em empresas de TV por assinatura) e GE (leia-se NBC, Universal Studios) mantém um relacionamento estável (MSNBC);
    
3. Newscorp (Fox, Fox News, cadeias de jornais) compra o MySpace por 580 milhões de dólares. Rupert Murdoch afirma que foi uma pechincha;

4. O maior acionista individual da Disney (ABC, Miramax, ESPN, HBO, Pixar), desde o início de 2006, é um certo Steve Jobs (Apple, iTunes);
    
5. Na semana passada a Disney anunciou que vendeu mais de 1 milhão de downloads de filmes através do serviço iTunes;
    
6. Google compra YouTube e assina contrato de venda de conteúdos provenientes da Viacom (CBS, Paramount, MTV, VH1);
    
7. Eric Schimidt, CEO do Google, tem assento no conselho da Apple. Steve Jobs tem assento no conselho da Disney. Apple anuncia acordo para venda de conteúdos da Viacom no iTunes.
    

Ubiquidade e 1984

Não importa mais o seu nível de paranóia. A não ser por uma catástrofe, parece que seremos cada vez menos “donos” de nossos dados. Fotos, coleções de músicas e filmes, livros, e-mails, documentos e vídeos, em breve, se não agora, estarão armazenados em um, dois, eventualmente três grandes provedores de serviço. Eles (man)terão seus dados, com a vantagem de que você os poderá acessar em qualquer lugar, com qualquer aparelho, a qualquer hora.

Talvez cinco computadores seja um exagero até: eventualmente um mundo dual pode se apresentar a nossa frente: o meu fornecedor e o fornecedor errado.

Viva o admirável mundo novo, viva 1984!

Outro pequeno aviso

Este texto originalmente foi escrito no Google Docs, enviado para o WebInsider através de minha conta de email pessoal, hospedada pelo Google, e com data de entrega agendada e alertada pelo meu calendário pessoal, também do Google.
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